Influência das etapas do preparo doméstico sobre os níveis de agrotóxicos em feijão-preto (Phaseolus vulgaris L.)
Autor: Kamila da Rosa Acosta (Currículo Lattes)
Resumo
O feijão-preto (Phaseolus vulgaris L.) é amplamente consumido no Brasil; entretanto, sua produção envolve o uso de agrotóxicos, cujos resíduos podem permanecer nos grãos e contribuir para a exposição do consumidor. Nesse contexto, o preparo doméstico pode alterar os níveis desses resíduos no alimento consumido. Este estudo teve como objetivo propor estratégias de preparo doméstico para reduzir os níveis de agrotóxicos em feijão-preto. Foram selecionados os agrotóxicos atrazina, pirimifós-metílico, procimidona e flutriafol com base na maior ocorrência relatada nos relatórios oficiais de monitoramento. O método analítico foi padronizado e validado para feijão in natura, grão cozido e caldo, utilizando extração por QuEChERS modificado e cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (CG-EM), com avaliação de linearidade, limites de detecção e quantificação, efeito matriz, exatidão, precisão e incerteza. O método apresentou linearidade adequada (R² 0,99), recuperações entre 70,2% e 115,6% e desvio padrão relativo inferior a 18,7%, atendendo aos critérios regulatórios. A ocorrência de agrotóxicos foi avaliada em 81 amostras comerciais de feijão-preto, com detecção de pirimifós-metílico em 46% das amostras e flutriafol em concentração inferior a 0,05 µg g¹. O efeito do preparo doméstico foi avaliado de forma sequencial, considerando lavagem, imersão e cocção. A lavagem dos grãos em água corrente promoveu reduções entre 15,1% e 45,3%. A imersão em água da torneira por 8 h apresentou reduções entre 3,5% e 84,4%, enquanto a imersão em solução de bicarbonato de sódio a 2% apresentou variação entre 6,8% e 84,8%. A imersão em solução de ácido acético a 2% apresentou os maiores percentuais de redução, com valores entre 36,3% e 85,8%, caracterizando a condição mais eficaz entre as soluções avaliadas. Os tempos de imersão avaliados foram 1 h, 2 h, 4 h e 8 h, com substituição da solução de ácido acético em 30 min, 1 h, 2 h e 2 h, respectivamente. Os tempos de 1 h, 2 h e 4 h apresentaram redução apenas para procimidona, com valores de 78,4%, 84,4% e 82,4%, respectivamente, enquanto o tempo de 8 h apresentou redução para os quatro agrotóxicos avaliados. Os resultados da cocção com e sem adição de sal foram expressos em fator de processamento (FP), no qual valores maiores que 1 indicam aumento e valores menores que 1 indicam redução na concentração dos agrotóxicos. Durante a cocção com sal, os valores de FP foram 5,9 para atrazina, 0,7 para pirimifós-metílico, 3,2 para procimidona e 7,7 para flutriafol. Para a cocção sem sal, os valores de FP corresponderam a 5,9 para atrazina, 0,6 para pirimifós-metílico, 3,2 para procimidona e 7,2 para flutriafol, sem diferença estatística entre os modos de cocção. O aumento na concentração dos agrotóxicos após a cocção possivelmente relaciona-se à liberação de resíduos ligados à matriz. A comparação entre feijão cru e feijão cozido indicou reduções globais superiores a 17,2%, variando conforme o agrotóxico avaliado. Dessa forma, práticas simples de preparo doméstico contribuem para a redução dos níveis de resíduos de agrotóxicos presentes no feijão-preto.